Vaca de Nariz Sutil
Sobre vacas e vozes

Foto: Divulgação.
O que terá movido os Parlapatões a montar um espetáculo que não tem como objetivo tirar risos da platéia? A) teriam eles se cansado de bancar os palhaços? B) teriam caído na real daquilo que a Bacante ainda não se tocou: que o humor não leva a nada? C) Será que esta é apenas mais uma piada dos palhacinhos da Roosevelt com seu público? Foram estas as perguntas que me levaram (já repararam como essas perguntas me levam toda semana a algum lugar? Qualquer dia eu deixo de obedecê-las pra fazer o que quero) ao Espaço Parlapatões, contrariando as indicações de amigos que já haviam visto o espetáculo (ainda não foi desta vez que eu tomei coragem de ver o Pirandello do Marcelo Lazzaratto).
Assim como em Prego na Testa não havia nenhum martelo, em Vaca de Nariz Sutil não há nenhuma amiga bovina, e também não há nariz sutil. O título, importado do livro de Campos de Carvalho que inspirou o espetáculo, por sua vez foi importado de uma pintura de Jean Dubuffet. Escreveu Carvalho: “Lembra-me um quadro que vi certa vez numa revista, do pintor Dubuffet se não me engano, onde todo o espaço era ocupado por uma vaca em todo igual às outras vacas, mas com um focinho e um olhar que não deixavam dúvida sobre a sua segunda sabedoria, e mesmo a terceira e a quarta – de tal forma que se tinha a impressão de que a vaca era quem a fitava e não ela, com ou sem os chifres que nos arrumaram os outros.”

Em cena, vemos um personagem esquizofrênico descrente e sua trajetória (ou os cacos de sua memória e consciência que, combinados, talvez compusessem alguma trajetória – certamente incompleta). Para que essa trajetória seja contada, além dos monólogos furioso-verborrágicos de Henrique Stroeter, o público é atacado por imagens que se projetam por quase todas as superfícies da pequena caixa cênica: paredes laterais, fundo e até mesmo o chão.
A linguagem de videoclipe torna o espetáculo mais atraente, entrecortando os diálogos e monólogos com um dinamismo. Mas o que acontece quando essas vinhetas amalucadas chamam mais atenção do que as próprias cenas? Pensando no assunto, percebo que, na verdade, aqui acontece o mesmo que no Primeiro Amor do Marat Descartes: o personagem central, não-linear e não-coerente, acaba tendo suas vozes (não, ele não é ventríloquo, ele é esquizofrênico, lembra?) unificadas, prensadas numa só. No resultado final, por mais que o texto diga (ou escreva) o contrário, é pouca a contradição efetivamente percebida, numa espécie de “esquizofrenia light”, comportada, racionalizada, que nem eu nem a voz em minha cabeça – aquela que sempre me convence a ver essas coisas – acreditamos ser a forma mais adequada para um personagem polifônico (tipo o toque de celular, sabe?).
E com isso, perdem-se imagens muito bem elaboradas quando, no meio do espetáculo, já não se entende mais onde aquilo tudo vai chegar (ou onde NÃO vai chegar). Mas pelo menos o moço ao meu lado exclamava um discreto e emocionado “que lindo!” para sua acompanhante, a cada vinheta que enchia o palco de som e movimento, ainda que muito desse som e fúria não significasse muito (ah, maldita vozinha que, além de tudo, me convence a terminar o texto com uma citação forçada…).
3 vacas amarelas
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