El Truco
Metalinguagem no subsolo
Fotos: Divulgação
No primeiro prólogo (sim, há dois deles) do espetáculo El Truco, um dos personagens diz ser considerado o pior escritor de todos os tempos, e que se esforça para permanecer no topo desta lista. Neste contexto, ele apresenta sua nova obra, que teoricamente é o espetáculo que segue (embora ele próprio faça parte deste espetáculo, como vemos adiante). Lembrei-me, bem de longe, de uma das primeiras falas de Mariana Lima em Gaivota – Tema para um conto curto, em que ela falava sobre como começar uma peça que fala sobre o fracasso de uma peça. O diálogo entre as duas montagens não pára por aí: tanto esta montagem do Núcleo Experimental dos Satyros como o Tchekhov de Enrique Diaz conversam o tempo todo com a realidade do fazer teatral. É, minha gente, a metalinguagem tá na moda.
A encenação deste El Truco é assinada por Roberto Áudio, cujo trabalho como ator já é conhecido sobretudo dos espetáculos do Teatro da Vertigem. Ele também assina a dramaturgia, escrita com base no material criado colaborativamente durante o processo – vindo de um ator com o background do Vertigem, seria de se estranhar se fosse diferente.
A situação proposta é absolutamente insólita: um grupo de pessoas confinadas em um abrigo subterrâneo durante uma guerra e que, na falta de algo para passar o tempo, decidem criar um musical (que na verdade é o Sonho de uma Noite de Verão de Shakespeare). Poucos ali são atores, mas todos eles se engajam na missão de construir uma bela obra para ser apresentada aos demais refugiados do bunker, interpretados… pela platéia. Assim como os musicais imaginários da personagem Selma, do Dançando no Escuro de Lars Von Trier, o papel deste musical não é apenas o de passar o tempo, mas de suprir o desejo de todos de criar algo belo como contraponto ao horror de sua condição. Não ficam de lado, porém, aspirações individuais como a auto-superação, “afago de ego” e até mesmo o estrelato, e é o conflito destes interesses que torna a encenação subterrânea de Shakespeare um grande desastre.
A relação dos atores do NES com seus personagens não é mera coincidência: poucos ali em cena são, de fato, atores profissionais (e aqui nos limitamos à definição burocrática da palavra). Para eles, certamente, fazer uma peça sobre não-atores experimentando pisar no palco traz um significado totalmente diferente do que para atores mais experientes (que é o caso, por exemplo, de Ivam Cabral, Cléo de Páris e Laerte Késsimos, que deram uma de bicões e embarcaram nessa maluquice, trazendo mais projeção para o espetáculo e novos significados internos para o texto). E a contribuição desta gente com pouca experiência no processo de criação torna o texto tão autêntico que este facilmente adquire autonomia para ser encenado em qualquer lugar, por qualquer grupo.
Mas nem tudo são flores. Apesar de talentoso, o elenco apresenta algumas irregularidades que são naturais (e já eram esperadas) em um núcleo experimental, e demonstram estar amparados por uma direção que não os deixa tropeçar. Há ainda algumas rebarbas no texto e nas cenas: situações propostas, como a iminente falta de comida e a impossibilidade de sair do bunker, por exemplo, são pouco exploradas e deixam algumas lacunas. Algumas imagens são autosuficientes e talvez não precisassem de texto legendando-as (a exemplo do próprio final). Em alguns momentos, o entra-e-sai frenético de personagens que vêm mostrar ao diretor do espetáculo suas cenas, somado às diferenças de linhas humorísticas de cada personagem, me lembraram a estrutura de humorísticos trash como A Praça é Nossa. Tá bom, a peça não merece comparações assim, mas que me lembrou, lembrou.
Essas ressalvas todas não impedem o espetáculo de construir imagens marcantes e originais, sobretudo aquelas que envolvem o coro (muitas vezes adornado com máscaras bizonhas de animais – aliás, a máscara de coelho vesgo está em liquidação? É a mesma máscara que aparece em Super Night Shot e, se não me engano, em Ifigênia). A ambientação é kitsch, muitas cenas são extremamente ridículas, e o melhor de tudo é que não existe o medo do ridículo. A trilha sonora é caprichada: passa por B. J. Thomas, Chemical Brothers, algumas obviedades facilmente substituíveis, como a versão heterossexual de I Will Survive, do Cake, e até mesmo a canção-tema do Veludo Azul de David Lynch.
No fim das contas, este espetáculo é tudo aquilo que se espera de um núcleo experimental: não é preciso necessariamente reinventar a roda, desde que os atores embarquem com firmeza na proposta, sem medo de serem ridículos e sem uma moderação castradora. Era algo assim que eu esperava, por exemplo, do Prêt-à-Porter do Antunes Filho, e que não vi. Na realidade do bunker que é a cena teatral em que vivemos hoje, é preciso cada vez mais coragem para embarcar em projetos criativos e ousados, por mais absurdos que possam parecer.
20 bichos bizonhos em cena
Nota da Redação (porque a Bacante também se dá o direito a essas frescuras): no fechamento, olhando as imagens de divulgação, uma das pessoas que não assistiram à estréia de El Truco perguntou: “Mas vocês vão falar da Montagem Regressiva?”. Hein? Com isso (e com o apoio do Google), descobrimos que El Truco já teve uma versão em cartaz, há algum tempo, chamada Montagem Regressiva ou Abate no Bunker. O que mudou de lá pra cá (além da entrada dos penetras Ivam, Laerte e Cléo), não sabemos dizer. Quem assistiu à primeira podia assistir essa Montagem Reaquecida (hehehe) e contar pra gente, né?
não sei essa, mas a versão que vi no satyros dois quando ainda chamava-se “montagem regressiva” era bem sofrível.
e os problemas nem eram pelos atores inexperientes. era mais “conjunto da obra”, mesmo.
Então, Beto, achei o “conjunto da obra” desse El Truco até bem resolvido, apesar das muuuitas barrigas. Barrigas nunca são justificáveis, mas às vezes vemos espetáculos que vale a pena relevá-las um pouco, em nome da proposta.
Gosto de pensar que o NES preferiu um projeto ousado a um projeto mais certinho e com menos riscos. As chances de dar errado são grandes, o resultado é um tanto irregular, mas particularmente acho o mérito maior.
Recomendo a leitura da crítica da Daniele para “Pão com Mortadela”, lá no Rio, fala dialoga bastante com isso que eu to falando.
Abraço!
Oi, Maurício.
Eu ainda não vi “El Truco” mas assisti “Montagem Regressiva”. De acordo com as suas observações, a única diferença parece ser a entrada do trio Ivam, Cléo e Laerte. Mesmo assim, pretendo assistir. Achei muito interessante essa relação atores/não-atores/personagens de Shakespeare.
Um abraço.
Mario, quando vc assistir, comenta com a gente as diferença então?
Abraço!
oi, maurício!
não assisti a outra montagem. entretanto, fui lá ontem ver ‘el truco’ e nossa, adorei, me surpreendi bastante.
o enredo justifica plenamente as linguagens usadas, muito interessante mesmo. as atuações estão bam mais maduras do que eu imaginava, enfim, fiquei imensamente feliz em assistir a peça.
gostei muito de tua resenha, balanceada.
até mais.
Ana, saí com a mesma sensação de contentamento. Pra falar a verdade, este é um dos textos que escrevi com mais satisfação aqui pra Bacante… exatamente por ser uma peça que traz uma dosezinha de coragem que eu tenho sentido bastante no teatro paulistano… ainda que essa coragem se reflita nos pontos que ficaram abertos…
Abraços!
[…] 1) http://www.bacante.org/critica/el-truco/ […]