Alice Através do Espelho
Crítica (bem) póstuma, ou Alice Através do DVD
Nananinanão, não voltou a entrar em cartaz Alice através do espelho, da Cia. Armazém. Não assisti ao espetáculo quando estreou, em 1999, tampouco à remontagem do repertório da companhia, em 2005. Não, também não é o caso de mais uma crítica de uma peça não-vista. Trata-se, sim, de uma crítica a um espetáculo estreado há quase 10 anos, mas que só pude ver na noite de domingo, em minha cama. Alucinação? Tóxicos?
Quando vi Toda Nudez Será Castigada, no Teatro Sérgio Cardoso, o pessoal do Armazém armou uma barraquinha pra vender camisetas, DVDs, essas bugigangas todas que a gente adora. Sabe como é, ninguém disse que é fácil ganhar dinheiro com teatro, sempre tem que ter uma atividade paralela. Me arrependi de não ter comprado daquela vez, e só pude fazê-lo este ano, em Curitiba, após Mãe Coragem e Seus Filhos. Simone Mazzer, ainda de maquiagem e figurino, fez um precinho mó camarada em dois DVDs e uma cópia de Espirais, o livro da companhia.
Sim, minha gente, essa é a crítica de um DVD. Ooooooh! Mas não deixa de ser uma crítica teatral. Se fosse seguir a lógica de um texto que certa vez li, da vó Bárbara, se estamos falando de um produto teatral por que o público paga para ter acesso, é passível de crítica. Eu estendo a análise da vovó até para um fruto da era da reprodutibilidade técnica, o DVD da peça registrada em vídeo. Você, leitor sapeca, me pergunta qual o sentido de falar disso agora, e eu devolvo outra pergunta: por quê não? Acho que é até mais legal escrever sobre algo que já passou faz tanto tempo – o pessoal não vê como texto de divulgação, nem como jabá nem nada. É como se a crítica, a essa altura, só servisse praquilo que ela mais vale: fazer pensar.
Logo de cara, vamos refletir um pouco sobre essa história de DVD. A primeira questão que surge, antes mesmo de apertar o play (ponto pro DVD, dá pra pausar!), é relacionada com o registro da linguagem do palco pela linguagem do vídeo. E mais importante que isso é o diálogo entre essas duas linguagens, gerando uma obra híbrida que transmita o máximo de uma forma através de outra. E o desafio fica ainda maior quando estamos falando de um espetáculo cujo formato tenta trazer para o palco o ambiente nonsense da obra de Charles Lutwidge Dodgson, um moço que escrevia sob o pseudônimo Lewis Carroll e tinha consciência de “escrever histórias sem pé nem cabeça”.
Na dramaturgia de Maurício Arruda Mendonça, misturam-se à trajetória de Alice a história de Dodgson (o Dodô) e sua identidade secreta (tchanam!). O público é convidado a mergulhar (com direito a tobogã, tipo o do Bozo) no mesmo delírio que faz a jovem garota, no limite incerto entre a infância e a vida adulta, “ter tantos tamanhos num dia só”, e vive junto com ela as aventuras num mundo em que realidade e ficção não se anulam, mas se complementam.
De difícil captação pelas câmeras, o espaço se transforma o tempo todo, com cortinas que se abrem e fecham tirando do público qualquer noção de direção e espaço. Esse formato se enriquece por não representar uma “ruptura pela ruptura” das estéticas teatrais: abre mão de convenções (que inclusive parecem muito menos flexíveis em espetáculos posteriores do grupo) para criar teatralmente o mundo de Carroll – e essa pesquisa formal já traz em si uma quebra bem bacana.
Alice através do espelho mostra-se o tempo todo uma experiência lúdica, divertida, mas não por isso desconectada da proposta provocar e fazer pensar. Não é ingênua, tem a delicadeza de apostar na sensualidade e no aspecto alucinógeno da obra para fazer pensar além dos questionamentos da adolescência (que sequer aparecem no desenho animado de Walt Disney, que eu me lembre), provocando a platéia sobre as contradições entre sanidade e loucura, lógico e ilógico, racional e irracional. E para abrigar estas dicotomias, o espetáculo não poderia ser melhor ambientado do que numa sugestão de manicômio, como espaço de delírio controlado pela razão (ou de razão relativizada pelo delírio, se for esse o seu ponto de vista, amigo leitor). Nisso, é verdadeira a atribuição da obra de Carroll às crianças: não aquelas a quem o desenho da Disney foi concebido, mas àquelas que deixamos de ser quando nos radicamos no mundo da racionalidade permanente.
O primeiro espetáculo do Armazém no Rio de Janeiro (na primeira residência do grupo na Fundição Progresso, após ficarem sem espaço em Londrina – uma história bem menos alardeada de transformação da vocação de um espaço urbano pelo teatro) provoca e diverte até mesmo quem o assiste do lado de cá da tela (ou do espelho, como preferir) – eu cheguei a gargalhar com a aparição do Coelho Branco, filho de Patrícia Selonk e Paulo de Moraes. Mas a transposição do teatro para o vídeo neste caso apresenta problemas que vão além das inevitáveis lacunas entre ambas as linguagens.
Logo no início, achava que o maior problema seria a dublagem dos atores para suas próprias vozes, mas esse incômodo rapidamente passa – vantagens de pertencer a uma geração que cresceu assistindo ao Chaves. O que mais incomoda é a perspectiva espacial que se perde através do registro, privando o vídeo-espectador de se perder na irracionalidade proposta pelo espaço. Também vale mencionar as animações (em duas e três dimensões), que não dialogam em nada com o que vemos no palco (como se os responsáveis pelo vídeo não acreditassem na transposição do surrealismo do livro para vídeo – embora no palco isso aparentemente tenha funcionado muito bem). Aparecem como vinhetas, (d)efeitos visuais no pior estilo “especiais de fim de ano da Xuxa”, para marcar as transições de cena – tão elogiadas por vários críticos que viram o espetáculo in loco. Mas tudo bem, isso é bom pra aprender a não perder mais a peça quando estiver em cartaz – é lembrar da Xuxa e correr pro teatro.
4 mordidas no bolinho que pede pra ser comido
Eu assisti em 99… E também assisti o DVD.
hehehe
Quando esperávamos para entrar ganhávamos um chá. O tobogã era alucinante! era tudo no escuro, ninguém podia imaginar nada… O teto que descia e subia dexando-nos pequenos e grandes… AS flores Drag-Queens… O DVD nãoconseguiu captar o silêncio… havia um toque de suspensão no ar… Eu fui pego pelo grupo e fui para a cadeira… As cenas que apareciam o Lewis, era tão… Bonitas. Frágeis. Foi um acontecimento!
NB – Isso também não é uma crítica..
Olha só quantas impressões se perdem por não ver ao vivo…
Eu vi a peça aqui em SP, e gostei de lembrá-la com teu texto. Mas não tem dvd que reproduza o estranhamento de dividir uma xícara de chá, desfazer-se de sua bolsa, descer de escorregador! Mesmo assim, fiquei com vontade de assistir o video, nem saba que tinha.
Abraços e vida longa ao site – que me pegou de jeito.